Islândia decide no sábado em referendo se reabre negociações para adesão à UE

Islândia decide no sábado em referendo se reabre negociações para adesão à UE

Os islandeses são chamados às urnas no sábado para decidirem se esta pequena ilha no Atlântico Norte deve reabrir negociações de adesão à UE, num referendo antecipado pelas ameaças expansionistas do Presidente norte-americano, Donald Trump.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Denis Balibouse - Reuters

Esta é a segunda vez que a Islândia, país com cerca de 400.000 habitantes, equaciona tornar-se Estado-membro da UE, depois de ter apresentado a candidatura à adesão em 2009, na sequência da crise financeira que devastou a economia do país, tendo as negociações arrancado formalmente no ano seguinte.

No entanto, ao fim de vários anos de negociações, com a chegada ao poder de uma coligação eurocética e com a economia já mais estabilizada, Reiquejavique decidiu abandonar a candidatura, enviando uma mera carta a Bruxelas a dar conta de que já não tencionava aderir ao bloco comunitário.

Onze anos volvidos, a adesão à UE volta a ser colocada sobre a mesa e os habitantes da pequena ilha vulcânica no meio do Atlântico Norte são chamados às urnas para responder à questão: "A Islândia deve reabrir as negociações de adesão à União Europeia?".

A consulta de sábado não incide, por isso, sobre a adesão em si, mas sim sobre a reabertura das negociações com Bruxelas, e caso o "sim" vença, um acordo a que Islândia e UE cheguem terá de ser submetido a um novo referendo e exigiria provavelmente uma alteração da Constituição islandesa, bem como a ratificação pelos 27.

"As pessoas devem encarar isto como uma oportunidade, não como uma decisão definitiva", sublinhou, esta semana, a primeira-ministra islandesa, Kristrun Frostadottir, argumentando que "um `sim` reduziria os riscos", pois "toda a gente gostaria de saber o que o futuro reserva", e, nesse caso, haveria num futuro próximo "um acordo concreto em cima da mesa e respostas a todas as questões que se colocam", para então o povo islandês se pronunciar em definitivo.

"As pessoas terão a primeira palavra e terão a última palavra", reforçou.

Esta segunda oportunidade de a Islândia aderir ao bloco comunitário começou a ganhar forma em 2024, quando chegou ao poder uma coligação governamental pró-europeia e que incluiu no acordo de coligação o compromisso de realizar um referendo sobre o reinício das negociações de adesão.

Essa consulta estava originalmente prevista para 2027, mas foi precipitada por vários desenvolvimentos económicos e geopolíticos importantes, com destaque para a ameaça de Donald Trump de tomar pela força a Gronelândia, território autónomo dinamarquês vizinho, numa altura em que o Ártico é muito cobiçado devido aos minerais raros e novas rotas comerciais.

As ameaças de Trump tiveram um impacto muito particular na Islândia, cuja defesa é assegurada pelos Estados Unidos e pela NATO, até porque, discursando no Fórum de Davos, no início do ano, o Presidente norte-americano enganou-se e por quatro vezes referiu-se à Gronelândia como Islândia.

Apesar de a Casa Branca ter sublinhado que se tratou de uma `gaffe`, os islandeses também não esqueceram as declarações do novo embaixador dos Estados Unidos em Reiquejavique, William Long, que, ao assumir funções, disse em tom de brincadeira que a Islândia poderia tornar-se o 52.º estado dos EUA e ele seria o governador. De nada serviu o pedido de desculpa, com milhares de islandeses a assinar uma petição instando o Governo a rejeitar a nomeação de Long.

Coincidência ou não, a verdade é que as autoridades islandesas lançaram na primavera o projeto de realizar o referendo sobre a reabertura de negociações com a UE já este verão, considerando que a inclusão no bloco comunitário seria benéfica "no contexto geopolítico atual", até porque a Islândia sente-se particularmente vulnerável dado não ter Forças Armadas.

Caso o "sim" vença e as negociações de adesão canceladas em 2015 sejam retomadas, todos os atores, de um lado e de outro, são unânimes em apontar a questão das pescas como a mais sensível, sendo que os islandeses voltariam a pronunciar-se em novo referendo sobre o resultado do acordo, com particular atenção a esta matéria.

Segundo vários diplomatas, as negociações seriam particularmente complexas em torno das quotas de pesca da cavala, já que Bruxelas acusa a Islândia de pescar em excesso esta espécie, que migrou para norte para fugir ao aquecimento global.

Contudo, este setor é crucial para a economia islandesa e, embora o Governo tenha prometido ser firme nesta matéria, os defensores do "não" argumentaram que a UE podia infringir a soberania islandesa, particularmente nas esferas politicamente cruciais da política das pescas e da agricultura, uma das questões que, de resto, fizeram "descarrilar" as anteriores negociações.

Da perspetiva da UE, é indisfarçável o interesse que o bloco tem na adesão da Islândia, não só em virtude da posição estratégica, mas também porque podia animar o processo de alargamento do bloco, contagiando positivamente países como a Noruega, que a UE também gostaria de acolher.

Segundo várias fontes, as autoridades islandesas já pediram, contudo, discretamente a Bruxelas que não se envolva na reta final da campanha para o referendo, para evitar acusações de ingerência, e, publicamente, tanto Frostadottir, como a ministra dos Negócios Estrangeiros, Katrín Gunnarsdottir, afirmaram que a decisão cabe exclusivamente aos islandeses. E estes terão a palavra no próximo sábado, dia em que são chamados às urnas cerca de 270.000 eleitores.

 

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